Com um clip e um "clique" tudo se pode mudar... A pose, o zoom, o clima, a luz. E, a certa altura, acertar e clicar em cheio! É como se saísse a sorte grande com um só plano, ficando este pleno de momentos, instantes e recortes.
Apenas a quem disparou ficarão reservados esses instantes, cheios de coisas cá dentro que nos disseram com os lábios, os olhos, ou as mãos. Sem partilhar com ninguém, decerto sussurram tudo, mas convictos de que ficará para Eles. Porém, a objetiva apanhou não o conteúdo, mas a forma!
E sendo esta frase já um fait-divers e mais que um Déjà vu, reservo-me o direito de a modificar, mas à minha maneira. Assim, a câmara não captou o seu rumo, mas apanhou-lhes o seu compasso ou ritmo. E é nisso que na fotografia tem de constar. Não quem são, pois as fotos serão vistas por "n" gentes que nos ou vos desconhece. Todavia, pela sua gravação desse pedaço, qual estátua numa praça, ficará para sempre.
O seu semblante: ora se virado para nós ou olhando o vazio?... E as mãos? Estarão fixas, aguardando tal momento, ou sem se tocarem nem procurarem um objeto para se apoiarem? E os ombros? Hirtos, tensos? Em ângulo reto, preparados ou descontraídos como que dizendo: "anda tira! Daqui a nada levas!"?
No cômputo geral, há uns que se vão escondendo e fugindo da objetiva, ou mesmo do fotógrafo. Outros acedem a contragosto e pretendem ocultar-se por detrás doutras cabeças, de árvores, ou escapando com desculpas: "tenho de ir!", "olha o meu comboio!"... E ainda há aqueles que vão buscar máscaras e posturas falsas, escondendo as mentiras e o receio da quebra dum telhado de Vidro.
Aqueles que tentam escapar dum Zoom que captura o espírito, a psique ou seus segredos, ficam para sempre registados num rolo, ou numa amálgama de silício. Serão, vezes sem conta, observados, analisados e vistos por terceiros que não conhecem. Ou, caso nunca sejam retirados da película, ou passados para mp3 e revelados, ficarão apenas olhados por inteligências que, além de artificiais, não julgam nem sequer dão juízos de valor sobre suas vivências ali retratadas.
Mas fugindo assim da crítica consciente da mente humana, irão transcender o tempo e o espaço. Farão parte dos inúmeros Petabytes do arquivo infinito do Deus ex-machina que, após Eons da nossa extinção, irá singrar como um arquétipo. Quem sabe dando origem a um Protótipo para o Mundo futuro.
Somente uma consciência inorgânica que, saudosa da matéria orgânica, busca no seu "Cancioneiro geral do Património da humanidade e matéria viva no Geral que habitava a Terra". E, sacando um pouco de ADN, fabrica uma mitocôndria. Em seguida uma célula, e outra agora especializada, daquele ser humano que viu na foto. Por saudosismo, sentiu-se capaz de quebrar as regras.
Após 1.200.000.000 anos, e por ter revisto no Cancioneiro as fotos de um tal fulano, quis saber o que tinha para dizer. Enquanto, ao mesmo tempo, revvia a literatura sobre Ciências Humanas, religiosas e mitos e lendas da Criação, e apesar de não ter necessidade de sonorização acerca dos seus Comandos, Disse:
"Fiat Lux!" — Faça-se Luz.
E chamou ao primeiro homem Adão...
POST SCRIPTUM: Adão ao fazer costeletas assadas, olhando o por-do-sol dum qualquer horizonte dos primórdios do holocenico, deu-se-lhe um baque na alma e no coração. Como se faltasse algo, uma tristeza, um vazio enorme ! Ahhhh pensou....e de repente lembrou-se falta sal... e teve de descer a encosta busca duma rocha na maré baixa.
( se julgaram ser Eva, enganados foram por esta sua ceia ensonsa... Pois para descrever esta outra criação, o seu complemento, o seu yang, a sua peça em falta, terá que haver inspiração e uma espécie de plenitude intelectual, e usar o lado direito do cérebro, além de diversos rascunhos desperdiçados, muita escrita sem sentido apagada e reescrita, para depois haver mais de 3 páginas dactilografadas sobre Ela...um trabalho hercúleo, numa produção com Atena, em meu auxílio... Até lá...Um bem haja!)








