Por vezes saiu-me um ensaio idiota, às vezes uma estória sem ponta por onde se pegue, uma opinião irascivel se segue e ainda um comentário político sem direcção nem sentido concebivel ou vazio de fito, inerte de objectivo e destino ausente.
Mas hoje decidi fazer algo diferente e consagrar este espaço a amigos ausentes que estão longe mas por detrás do pano presentes e daí que não queira fazer um apontamento de reportagem ou uma singela homenagem à sua alma ou mente, assim fazemos antes "apontamentes" direccionado -> Aqueles que estando ausentes recordam-se do presente( primeira pessoa do singular) pois a amizade é um conceito que não é vago nem peculiar e tem fundamento no bom senso e na moral e bons costumes, sabeis disso? Então cá vai disto...
Ponto parágrafo aspas travessão.
Apagam as luzes e sobe o pano.
Aliás dizem os entendidos que a amizade, dizem os filósofos e os manuais dos bons costumes, é um dos sentimentos mais nobres da condição humana. Define-se pela reciprocidade, pelo apoio mútuo, pela partilha desinteressada e por uma conexão que desafia o tempo e a distância. É um porto seguro onde dois seres se cruzam em pé de igualdade. Isto, claro, na teoria. Na prática, e com duas décadas de convivência à mistura, descobri que a amizade também se pode definir como um excelente negócio unilateral — pelo menos para uma das partes.
Há quem confunda amigos com investidores a fundo perdido. Durante anos, sempre que a noite do Bairro Alto chamava, os copos surgiam e a missão de sedução começava, a coreografia era de uma precisão matemática. Havia quem tivesse os bolsos cheios e a conta bancária recheada, mas sofresse de uma súbita e crónica amnésia financeira assim que a conta chegava à mesa. "Não tenho nada, pá", dizia-se, com a mão ligeira a afastar-se da carteira. E ali estava eu, o mecenas oficial da noite lisboeta, a pagar o compasso e o ritmo de uma diversão que se escrevia a duas vozes, mas que era liquidada apenas por uma. As dívidas acumulavam-se num caderno invisível de promessas de pagamento que, ironicamente, nunca saíram do papel.
Passou-se o tempo. Uma década de silêncio absoluto. Nem uma chamada, nem uma mensagem, nem um "como estás?". O desaparecimento confirmou o que os números já sopravam: a suposta amizade não era um vínculo, era um contrato de usufruto. Ele usou, abusou, consumiu e seguiu viagem sem pedir licença — porque se a tivesse pedido, a minha generosidade talvez lha desse. Mas a audácia dos parasitas reside precisamente em não dar espaço à escolha.
Contudo, o universo da tecnologia é fascinante e o arquivo digital do Deus ex-machina não dorme. Após dez anos de um deserto de palavras, eis que descubro que o meu velho companheiro de copos afinal sabe ler. E lê com muita atenção. Frequenta o meu blogue, consome o meu material e, numa reviravolta digna de um plágio barato, apropria-se das minhas ideias, da minha psique e da minha escrita. O homem que tinha muita moral e pouca ética e vontade para mais "um copo de três", hoje demonstra uma tremenda riqueza... de falta de originalidade.
O parasitismo( nem sequer simbiotico ou mutualista) ou evoluiu da matéria orgânica para a inorgânica: antes alimentava-se da presença e da minha carteira aquando cheia, pois ora quando se encontrava vazia, nem sei onde estaria! E hoje alimenta-se do meu intelecto?? Espero, muito francamente, estar enganado desta minha opinião e sinceramente espero não ter razão e tudo o que digo aqui é apenas da boca pra fora e plena de emoção e fruto da desilusão, ou ilusão( e falta dela!)
Olhando para trás, o desalento dá lugar à lucidez. Duas décadas de ilusão e uma década de silêncio deixam um veredicto claro. Não há como voltar a ser amigo de quem confunde inspiração com soberba pompa e circunstância ficando aqui a lealdade como conveniência. Fica aqui o registo impresso, indelével como uma estátua numa praça ou uma amálgama dum texto pronto a estrear num palco! E vou parar para não queimar, pois já cheira a fumo! E minha escrita tem rumo, meu caro, e continuas a ser a sombra na luz dos outros. Ou és um espectro que vibra no espectáculo alheio?....
Fica apenas o breu...
Desce o pano...
e nele cai a nódoa...