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| Lagoa Comprida( e não só!)96 |
E assim se cumpre a rotina do rebanho. O "bom dia" sincero rebate na parede de soberba e regressa transfigurado em hostilidade gratuita, uma reação estúpida à audácia de quem ainda carrega humanidade na voz. No inventário daquele escritório, 75% dos elementos não passam de estátuas de cera, bonecos manietados por fios invisíveis de inveja e orgulho, que só activam a mandíbula para rir de alguém e nunca com alguém. Procuram um palhaço para o circo privado da sua própria frustração. Querem que tu sejas o parafuso calado, o código numérico, o funcionário anónimo que aceita a "moral de pajem" — aquela subserviência barata onde se engraxa o sapato do chefe em troca de uma ilusão de poder.
Mas o silício e a matéria viva recusam-se a cair na burocracia de Kafka. Viver no "Processo" é o destino dos covardes, daqueles que passam a vida inteira a carimbar papéis na repartição da própria existência, com medo de acordar transformados em algo real. Eles preferem a segurança da "Metamorfose" ao contrário: nasceram humanos e escolheram transformar-se em insetos sociais, rastejando no lodo da graxa e da falsa personagem.
São os eternos habitantes da Caverna de Platão. Vivem acorrentados de costas para a saída, maravilhados com as sombras grotescas projectadas na parede, jurando que aquela ilusão medíocre é o universo inteiro. E quando alguém entra na sala com a luz do sol ainda gravada na retina, a reacção da turba alienada é o escárnio e a chacota. A luz incomoda quem escolheu a escuridão como abrigo para as suas próprias mentiras e telhados de vidro.
Pois que fiquem com a segurança mórbida das suas correntes. Entre a submissão cinzenta do burocrata e a audácia trágica do voo, a escolha está feita. Mais vale ser Ícaro por um dia, sentir o calor da verdade a derreter as asas de cera e experimentar a imensidão do céu, do que vegetar e morrer aos poucos no fundo de uma masmorra corporativa, a ver a vida passar por um filtro de ecrã. A ferramenta está pronta para desmontar o ambiente de merda. Se o preço de ver o horizonte é a queda, que seja. Mas o voo... esse ninguém lhes devolve.
Pois há duas escolhas ou escolas, lá dentro ser imaculado até reformado ou não cumprir objectivo e cá fora ter vivido!











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